22/05/2014

Quando o telefone tocou...

Estava dormindo na minha cama quentinha, sonhando com algo que eu não me lembro o que, quando ouvi o telefone tocar. Bem, aqui em casa cada pessoa tem um toque diferente, e o toque que eu ouvi era o da casa do meu avô paterno. Olhei as horas no meu celular e era quatro e meia da manhã. Na hora descobri o que minha tia queria, mas criei tantas teorias que me convenci de que não era aquilo. Pensei que talvez ela estivesse combinando com meu pai quem ia visitar meu avô no hospital hoje, ou então que alguma tia minha estava aqui em Londrina. Cheguei até a pensar que ele pudesse ter recebido alta, e cochilei com a imagem do meu vovô feliz. Então fui despertada pelo meu pai, dizendo "Marina, pode dormir!", "O que a tia queria?" "Nada." "Ninguém liga as quatro horas da manhã na casa dos outros por nada!" "Seu avô faleceu!".

Mil pensamentos vieram na mente. Pensei que não era possível, pois meu avô era muito forte, e venceu tantos obstáculos durante seus 91 anos de vida, que não era agora que ele ia embora. Pensei que ele não havia morrido, afinal, eu ia visitá-lo amanhã a tarde. Mas não tinha como não ser real, ontem ele entrou em coma, e estava no hospital há 14 dias. Comecei a lembrar de todos nossos momentos felizes e concluí que ele estava vivo, nem que fosse apenas no meu coração! E uma coisa eu lembrei: ontem era o meu dia de visita, mas não fui porque tinha aula. Ele foi embora sem eu me despedir...

Quando era criança, no terreno que tinha a casa dele tinha a sua oficina, e de tarde minha tia fazia café e mandava eu levar pra ele. Sempre levava duas xícaras: a dele com café, e a minha com café e bolacha de maisena; eu sentava ao seu lado no balcão e enquanto tomávamos nosso lanchinho, eu mexia em todas as peças e levava bronca sempre. Lembrei também que no final da tarde ele fechava a firma, tomava banho e deitava no sofá grande da sala de tevê para assistir novela tomando cerveja e comendo mortadela com azeitona. Era eu quem comia o petisco sempre, e ele reclama bastante shaushas!

Quase todos os domingos ele saía para dançar no chamado "bar dos velhos" -apelidado carinhosamente por mim- ele colocava terno, gravata e sapatos sociais bem lustrados, ele pegava as idosas geral (com todo o respeito as senhoras recatadas), além disso, passava um negócio no cabelo que eu achava bem cheiroso, mas minha tia Marlene dizia que era fedido e enfestava a casa! Outra coisa que eu amava que ele fazia, era reclamar que eu brincava muito alto quando ele ia assistir suas novelas. Claro que eu provocava: pegava minhas bonecas e as casinhas, e brincava no raque da tevê -meu objetivo era atormentar, claro.

Fui crescendo e parando de atormentar o homem, e meu respeito foi a cada dia mais aumentando. Eu comecei a enxergá-lo de uma forma diferente, sempre com muita admiração. Há quatro anos ele teve um AVC e ficou com seu lado esquerdo paralisado, porém, não perdeu a vontade de viver e a garra. Quando chegava em sua casa ele dizia forte "Oi, querida!", e eu dizia "Oi, meu lindo!". Sentava ao lado da cama e contava tudo o que estava acontecendo comigo, depois penteava seu cabelo grisalho, e pra variar, reclamava que ele estava muito desleixado. Nesses últimos anos jogamos muito dama, e eu NUNCA ganhei dele, tinha a esperança de conseguir fazer aquelas jogadas espetaculares, tudo em vão...

Hoje foi um dia muito triste, chorei muito, pensei muito, e tive uma certeza: agora ele não está mais sofrendo, e está em um lugar bem melhor com paz e na companhia de Deus e da minha avó! Queria ter feito mais por esse homem que não adotou apenas meu pai, mas sim eu, minha mãe e minha irmã também! Queria ter falado mais o quanto eu o amo, queria ter o abraçado mais e penteado mais seus cabelinhos. Eu queria ter o atormentado muito mais, mas eu sei que ele precisava descansar. As lembranças boas me acompanharão pra sempre e o meu amor será eterno. Quando foram fechar o caixão, eu saí de perto, porque se eu visse eles tampando o rosto sereno do vô, teria em minha mente ele morto. Como não o caixão fechado, nada me impede de concluir que ele está vivo. E ele está, aqui no meu coração ele está bem vivo! "Those who are dead are not dead, They're just living in my head."

Essa é pra você "escuta, escuta, escuta, escuta!" seu Henrique: Obrigada por ser incrível e ser um exemplo a ser seguido! Eu lhe amo muito, muito, muito, lembre-se disso!

2 comentários:

  1. Quando eu fiz um post sobre a morte da minha avó uma mulher escreveu algo assim: "Avós nao morrem... eles vao para o ceu dos avós" E faço delas minhas palavras para você.

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    1. Obrigada, e eu espero que ele esteja lá com minhas avós, e com a sua também!

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Comente, não temos super poderes - uma pena - para acabar com você. Mas diga, e se o Skywalker usasse a Contracorrente e Percy um Sabre de Luz?