16/05/2013

Um poder a quem não tem poder

Há coisas inexplicáveis. Tais como levar sempre uma xícara de café na bolsa, ou por gostar de sentar no chão perto de lugares onde passam muitas pessoas, e por isso são muito sujos. Isso tudo para conseguir um bom foco para um bom texto. E era assim que ela trabalhava. Ela vinha há meses seguindo essa mesma rotina. E em todos os dias, parecia que isso não era uma rotina. E sim uma coisa nova. 

É claro que isso não é um bom trabalho. Não se você espera ganhar muito dinheiro com seu trabalho. Mas ela ficava feliz toda vez que ouvia algo que pudesse vir a ser um parágrafo no seu texto. Aliás, é um privilégio poder ver como os seres humanos se comportam tão irracionalmente na maior parte do tempo. 

Ela tirava um livro, que as vezes ficava meio molhado com o café, que vazava, e lia. E as vezes também fazia alguns anagramas com sua última palavra do texto, embora esses não ficassem bons, e sim cheios de palavras inexistentes. Ela também gostava muito de misturar a história do suee livro com a dos seres que passavam na sua frente. E também colocar as novas palavras, meio que como um novo idioma.

E era assim que ela passava seus dias. Seus anos.

Ocorreu que um tempo ela adoeceu. E como eu disse, o trabalho dela era um trabalho para quem a)tinha muito dinheiro e tempo (ideia não citada, mas vamos incluir aqui) ou b)a pessoas queria morrer de fome. Então ela não tinha dinheiro. E teve que achar um jeito para pagar as despesas dos seus remédios. Que eram caros. Então ela vendeu seus textos, que eram crônicas sobre as pessoas que passavam, e ganhou o suficiente para poder se curar, e viver mais alguns dois meses de vida. Não. Exatamente dois meses e dez dias de vida. Sabendo que ela morreria, queimou seus textos, e deles saiu uma fumaça verde-azulada, e o começou a explodir tudo. Sim. Textos com poderes. Os jornais também foram todos explodidos. E todos os lugares nos quais seus textos estavam. E assim, mais ou menos, acabou-se o mundo. Com chamas azul-esverdeadas - que são a mesma coisa que verde-azuladas - e muita fumaça. O mundo acabou por causa das palavras. E sim, houve algumas festas de comemoração por conta disso em alguns planetas distantes. Os humanos eram tão egoístas. E tinham as palavras. E também tomaram cuidado para não criarem palavras. Não queriam um fim trágico.

Na verdade o mundo só acabou porque ninguém nunca ligou para ela. E ela foi a pessoa que menos fez coisas no mundo. Ela também não influenciou nada. Mas ela sabia de tudo. E de todos. E tinha as palavras. Então o poder de acabar com tudo foi dado-lhe, sem ela ao menos saber. Aliás, como a terra é justa. Deu aquilo de mais importante a quem nunca teve muito. Tão justa...

Efeitos colaterais de se passar muito tempo lendo 'a trilogia de cinco' de "O Mochileiro da Galáxias"

Um comentário:

  1. Ela usava o poder das palavras contra tudo e todos.
    Que lindo Duda!

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Comente, não temos super poderes - uma pena - para acabar com você. Mas diga, e se o Skywalker usasse a Contracorrente e Percy um Sabre de Luz?