29/05/2013

adeus, amor

Em todos os lugares que eu olhava, eu via você. Aquela taça de vinho com a marca de seus lábios, quebrada num canto. Os restos mortais da salada sobre a mesa. A toalha jogada no chão. Mil lenços com meu choro no cesto de lixo.

Estava um caos. Toda bagunçada por dentro. Você me fez chorar. E isso importava. E muito. Chorar não é apenas chorar. E chorar é mais do que isso. Era o que você me fez sentir: vazia. Perto de uma escuridão imensa, um black-out na alma. Um assoalho negro coberto de sangue. E os cachos do seu cabelo jogados perto da pia da cozinha.

Eu não sabia o que fazer. Acabei indo embora. Sem olhar para trás. Adeus.
E deixei cair aquela tiara de flores que você tanto amava.

25/05/2013

E quando eu menos esperava, o mundo explodiu. E quão bonito aquilo foi, eu não posso lhe dizer. Não há como descrever tal cena.

Havia cores por todos os lados. E fogo. Fumaças coloridos. O mundo estava tão lindo, de forma jamais vista. As combinações as vezes eram erradas, e caiam em lugares errados. E de repente tudo ficou branco. Um novo céu foi descoberto.

E o mundo explodiu, e quão maravilhoso aquilo foi, não posso descrever.

Mesmo de olhos fechados as luzes eram fortes, e coloridas. Mesmo de olhos fechados você via o que acontecia.  E aquilo continuou até que ninguém mais conseguisse distinguir nada. As luzes cegaram todos os olhos. Eis a nova geração.

E o mundo explodiu, e quão divino isso foi, bom, nunca, ninguém, poderá lhe dizer.

E parecia que tudo iria mudar. E mudou. E veja. Todo mundo sempre quis mudar o mundo, bem, todo mundo já tentou mudar o mundo. E isso é mais ou menos que todos querem. E por isso digo que essa foi uma das mais maravilhosas cenas do mundo. O mundo mudou. Muito bem, humanidade, tudo mudou. Bem, para melhor ou pior, anda posso lhe dizer, mas mudou.

E explodiu. E as cores ficaram negras em minutos. As combinações pararam de serem frequentes, e tudo se calou. Eis outras luzes. eis nov era. Eis novo mundo. E ninguém contribuiu realmente para isso. E agora está tudo bem.

24/05/2013

irreal

Era um dia depois do outro.
Eram dias comuns.
Era em cada um desses dias que eu me sentia
cada vez mais fria;
cada vez mas neutra.

Os outros vinham me chamar:
- Viva, e mais nada!
Eu vivia, na vida abafada
sem mala nem nada
até o fim do mundo.

Eu dançava e gritava
e ninguém ouvia.
Eu via a escuridão.
Eu via as estrelas.
É. Era tudo em vão.

Eu sabia que as coisas iam embora quando a chuva caía
e sabia que não voltariam mais.
Mas eu chorava como uma criança sem colo;
tentava fugir da realidade que me cabia
e só não encontrava todos os motivos
que me tornavam reais.
{que péssimo poema. inspiração a mil por hora, e as palavras não saem...}

20/05/2013

Adams, seu irônico: sem Zaphod Beeblebrox e Marvin é demais...

Ana Clara que não sabe de nada interferindo em meus posts, em minhas mágoas...

A resposta, bom, não foi satisfatória. Marvin, meu amor, por quê? Mais um livro não é nada, desde novo você reclamou de tudo, o que era viver mais algum pouco?

Há muita ironia nesses livros. E muita desgraça. Meus conselhos agora não servem para nada. Não funcionam para mim. Não mesmo. Ouvir 'Simple as This', não entrar em pânico. Nada adianta. Aliás, foi essa coisa de "Não entre em Pânico" que me deixou assim.  Por que fazer isso comigo?

A simples lembrança de Marvin me faz chorar. A simples lembrança de Zaphod me faz chorar. Por que ele não pode mais aparecer? ele simplesmente sumiu? No quarto livro dizia que ele criou juízo, e teve filhinhos - bonitinhos? - com Tricia, e blá, blá, blá. Cadê o meu quase eu Zaphod Beeblebrox? Cadê? Não me faça morrer. Não agora.

Cerca de uma hora chorando é muito tempo. É muito choque. É muito ruim.
Marvin, meu amor, mais um livro vivo, por que não? Viveu tanto tempo reclamando... Tanto tempo abrindo e fechando portas, e pegando papéis no chão. Por que você?

É como se um vazio se abrisse em mim. E nada fecha ele. Nada. É como Colin disse: o buraco nunca se fecha. Nunca. 

Agora encontro sentidos para continuar a ler o último livro. Choro todas as vezes que eu lembro dos meus amores - é por isso que eu não consegui passar da metade do segundo capítulo. Oh, vida injusta... 

19/05/2013

Ruínas

Há algo que eu ainda não vi, e é isso que me mantém.
Há algo que ainda não foi visto por ninguém.
Há algo novo.
Há algo que ninguém sabe o que é, e dizem nunca ter visto.
Inclusive, dizem que não existe.
Não sabem o que é.
Sabem que existirá.
Devem ser ruínas, restos.
Nada novo.
Nunca novo.
Aliás, ainda estamos no planeta Terra.
Traços retos, traços de restos.
Tem algo que me mantém afim de escrever inspirado no livro.
Estou no livro quatro, estou acabando.
Esperem, voltarei ao normal. Ah, sim, espero voltar.
Post super carregado de nostalgia. Isso também.

17/05/2013

o choro das almas

As tardes passavam mais rápido. As nuvens corriam. E meus olhos demoravam a segui-los. A vida cheirava a cinzas. As tardes de domingo tinham gosto de vingança.
Choviam lágrimas de sangue.
Todo o mundo achava normal o que era para ser o fim.
O fim de si mesmos.
De quem amavam.
E do que não os fazia falta.

A vida simplesmente não tinha sentido àquela altura. E ninguém se importava. O fim esbanjava felicidade. Porque viver de nada adianta se não existirem evidências de que a vida existe.
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16/05/2013

Um poder a quem não tem poder

Há coisas inexplicáveis. Tais como levar sempre uma xícara de café na bolsa, ou por gostar de sentar no chão perto de lugares onde passam muitas pessoas, e por isso são muito sujos. Isso tudo para conseguir um bom foco para um bom texto. E era assim que ela trabalhava. Ela vinha há meses seguindo essa mesma rotina. E em todos os dias, parecia que isso não era uma rotina. E sim uma coisa nova. 

É claro que isso não é um bom trabalho. Não se você espera ganhar muito dinheiro com seu trabalho. Mas ela ficava feliz toda vez que ouvia algo que pudesse vir a ser um parágrafo no seu texto. Aliás, é um privilégio poder ver como os seres humanos se comportam tão irracionalmente na maior parte do tempo. 

Ela tirava um livro, que as vezes ficava meio molhado com o café, que vazava, e lia. E as vezes também fazia alguns anagramas com sua última palavra do texto, embora esses não ficassem bons, e sim cheios de palavras inexistentes. Ela também gostava muito de misturar a história do suee livro com a dos seres que passavam na sua frente. E também colocar as novas palavras, meio que como um novo idioma.

E era assim que ela passava seus dias. Seus anos.

Ocorreu que um tempo ela adoeceu. E como eu disse, o trabalho dela era um trabalho para quem a)tinha muito dinheiro e tempo (ideia não citada, mas vamos incluir aqui) ou b)a pessoas queria morrer de fome. Então ela não tinha dinheiro. E teve que achar um jeito para pagar as despesas dos seus remédios. Que eram caros. Então ela vendeu seus textos, que eram crônicas sobre as pessoas que passavam, e ganhou o suficiente para poder se curar, e viver mais alguns dois meses de vida. Não. Exatamente dois meses e dez dias de vida. Sabendo que ela morreria, queimou seus textos, e deles saiu uma fumaça verde-azulada, e o começou a explodir tudo. Sim. Textos com poderes. Os jornais também foram todos explodidos. E todos os lugares nos quais seus textos estavam. E assim, mais ou menos, acabou-se o mundo. Com chamas azul-esverdeadas - que são a mesma coisa que verde-azuladas - e muita fumaça. O mundo acabou por causa das palavras. E sim, houve algumas festas de comemoração por conta disso em alguns planetas distantes. Os humanos eram tão egoístas. E tinham as palavras. E também tomaram cuidado para não criarem palavras. Não queriam um fim trágico.

Na verdade o mundo só acabou porque ninguém nunca ligou para ela. E ela foi a pessoa que menos fez coisas no mundo. Ela também não influenciou nada. Mas ela sabia de tudo. E de todos. E tinha as palavras. Então o poder de acabar com tudo foi dado-lhe, sem ela ao menos saber. Aliás, como a terra é justa. Deu aquilo de mais importante a quem nunca teve muito. Tão justa...

Efeitos colaterais de se passar muito tempo lendo 'a trilogia de cinco' de "O Mochileiro da Galáxias"

05/05/2013

sobretudo é sobre nada

Ela não sabia o significado da vida. Ela não sabia o que era o céu. E a noite. E a lua. E todas as coisas boas que existiam. Mas ela sabia enxergar além. Via os jogos de xadrez como pura diversão, diferente de todos os outros velhinhos que moravam no reformatório. Era coisa de louco, literalmente. Senhores e senhoras abandonados pelos filhos e ela, ali, abandonada por si mesma. Não era bom. Não era ruim. Simplesmente, não fazia diferença nenhuma. Aprendera a viver entre eles, e aprendera a viver, de um modo diferente de tudo o que todos haviam visto.

Cantarolava canções de ninar aos ouvidos dos senhores de oitenta anos que dividiam o quarto em cinco camas. As senhoras praticavam seus dotes em tricô e ela aparava as unhas de cada um cautelosamente. Ninguém se importava pelo fato de seus cabelos vermelhos fazerem bagunça nos móveis e caírem estatelados encharcando o chão com a beleza de seus fios. Não fazia efeito sob seus olhos e nada mudava por ali.

Passavam os invernos e as coisas continuavam como sempre. Chegava o verão, a piscina da hidroginástica se enchia de pessoas enrugadas e com energia pra gastar, e um ser esquelético continuava a cantarolar a única canção infantil e fúnebre que conhecia. Era a morte da vida que nem conhecia, de uma menina do sul que não existia no mundo.
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04/05/2013

get away from me

Me sentia um gatinho. Preguiça enorme, olhos arregaladas, voz fraca e rouca, cabelos eriçados e um monte de coisas entaladas na garganta. Vai saber se gatos têm coisas presas na garganta, mas eu tinha. Era a hora certa pra gritar e desintoxicar. Entraram as pessoas no quarto, todas prontas pra me darem suas palavras de conforto e flores que eu jogaria na lata de lixo. Lindas rosas vermelhas e petúnias amarelas. Eles nem sabiam de nada. Nem sabiam que eu odiava o cheiro hipócrita daquelas flores.

Eram redemoinhos, correndo para todos os lados, me deixando tonta e verde, com vontade de mandar todo o mundo embora e ficar sozinha. Me deixem o café, e se vão. Vão para bem longe. Voem. Nesse céu nublado. E me deixem olhar pra vocês bem longe de mim.

Era difícil acreditar que algum dia isso fora bom, colorido e macio. Carinhos e afagos na cabeça e palavras angelicais. Choros com soluços. Palavras misturadas com água. Sentimentos feito pó. A cabeça nas nuvens. Girando. Indo embora. Me fazendo botar tudo pra fora. E não voltando mais. Porque eu não sabia o que eram. E não queria descobrir tão cedo. Vão embora, eu dizia. Vão embora.
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